Saudades da ignorância

É, você leu o título certo, no post certo, no blog certo. Hoje quem vai fazer o post autoreflexivofilosoficopirocopterizante do dia sou eu.

Eu às vezes tenho saudades de não saber. Saudade de não ser iniciada nos mistérios da vida.

Porque, se por um lado, quem não sabe, acha que as sombras que vê do ponto onde está aprisionado na caverna são a realidade, quem sabe tem o encanto, a maravilha, é menos ignorante e todos os pontos positivos, mas passa por uma série de problemas ao saber. Quando se desprende e começa a caminhar, os músculos, atrofiados por falta de uso, doem e andar é difícil. Quando ele sai da caverna, a luz ofusca, dói os olhos, a cabeça, e a sensação é de ter ficado cego. E, depois de ver e se maravilhar com o universo lá fora, sabe que precisa voltar para a caverna, e, agora, não consegue mais ver nada dentro da caverna, pois seus olhos estão acostumados com a luz. Se contar o que viu aos demais, corre o risco da descrença, de ser chamado de mentiroso, e até de ser morto pela heresia de negar a realidade. Se não contar, vai ficar o resto da vida com o peso na consciência por não ter dito.

Vale à pena sair da caverna e ver o mundo? No meu normal, eu sempre digo que vale. Num dia de um humor pior, eu não sei se digo o mesmo…

A verdade dói. E tem dia que o analgésico não é forte o suficiente para esse tipo de dor. Aí, em momentos de menos lucidez, um troço tão abominável como a ignorância chega a dar saudades. E a gente fica a pensar se a vida seria mais simples se não tivéssemos descoberto certas coisas. Não nego nem me arrependo de meus caminhos, e até queria ter mais alguém além do Chro prá caminhar comigo… Mas não sei se recomendo o caminho. E isso é cruel. Porque, por um lado, sei que ele teria sido mais suave para mim se alguém mais experiente me guiasse. Por outro, hoje em dia, eu só guiaria alguém se eu tivesse certeza que a pessoa não poderia voltar atrás nem se quisesse.

Ver o mundo dói. Doi porque o mundo é um reflexo de nós mesmos. O que está dentro é, reflete, e se assemelha ao que está fora. Dói ver que sabemos o que está errado com o que o outro está fazendo, e o erro deles está exatamente no mesmo ponto que o nosso: Precisamente aquele ponto que não sabemos como resolver. E se a pessoa não estiver preparada prá entender aquilo ela simplesmente não entende, por mais que os fatos sejam claros, e o erro, óbivio, para quem está de fora. E aí, caímos num paradoxo: Como ajudar outrem se, mesmo que a pessoa queira ser ajudada, e mesmo que a pessoa tenha o conhecimento, ela nem sempre tem maturidade suficiente para que o entendimento seja incorporado? É, como o mundo não é simples, esse paradoxo fica ainda mais difícil de resolver se o interiorizamos. E essa, é, para mim, uma questão crucial, um problema muito duro de ser resolvido: Se eu sei o que está errado comigo, porque é tão difícil mudar? Como pode existir um abismo tão grande entre conhecimento e prática?  Meu mundo não seria melhor se eu não soubesse tanto?

Em tempo: Estou lendo Jonathan Strange e Mr Norrell. Estou lá pela página 200 e tanto, de quase 800, da edição “pocket” (que de pocket não tem nada) em inglês. E devo dizer que eu, muitas vezes, me sinto muito Mr.Norrell…

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Héliton Junior
    jan 18, 2013 @ 23:18:14

    Um dia me disseram: “Você que não vê é abençoado”. O qual eu respondi: “Mas eu quero ver, e eu conheço as conseqüências. Porque se eu não passar por isso, jamais vou saber se minha existência era realmente necessária”.

    E eu preciso ler esse livro tb! 😀

    Resposta

  2. Trackback: Saudades da ignorância (via Um ano e um dia) | Beto Bertagna a 24 quadros

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