Sobre um novo bloco de anotações

Ontem à tarde, voltando do serviço, algo me chamou a atenção numa movimentada avenida: Um pano estendido no chão, com bloquinhos de papel reciclado de diversos tamanhos, que alguém estava vendendo; notando que eu estava observando, uma moça que estava um pouco distante, veio me atender. Era uma moça completamente comum, sem nenhuma característica que a destacasse da multidão de Sampa-Babylon. Até mesmo a idade dela era um pouco difícil de imaginar. Acho que devia ter entre os 35 ou 40. Estava com um carrinho desses fechados que se tornou comum entre o ano passado e o retrasado para carregar compras por aqui, e o carrinho era tão discreto quanto a moça, que logo começou a fazer suas promoções.

Eu não precisava (nem preciso) de um bloquinho de anotações. Tenho vários, inclusive alguns que eu mesma customizei, já que também sou artesã e trabalho, inclusive, com papelaria personalizada. Mas a coisa mais óbvia do mundo era comprar um daqueles bloquinhos. Um pequeno, pois não tinha dinheiro prá mais que isso. Aliás, duvidava que tivesse dinheiro até mesmo para o pequeno. Se eu conseguisse encontrar o dinheiro, negócio fechado. Se não encontrasse, ao menos pegaria o contato da moça. Levava mais dinheiro comigo do que o que eu supunha, ainda ficaria com umas moedas se comprasse. Ótimo. Um deus sussurrou para que eu levasse o bloquinho vermelho mais escuro, eu obedeci.

Eu admiro aquela mulher. Porque ela tem uma coragem que eu não tenho. A de pegar os produtos do trabalho dela, e vender na rua. Eu admiro muito as pessoas que fazem coisas que eu não seja capaz de fazer. O professor que consegue dar aula prá uma sala lotada de adolescentes em escola pública, o coletor de lixo… A artesã que vende seu produto, sabendo que ele é lindo e de qualidade, nem que precise ficar o dia inteiro de pé numa rua movimentada. E eu disse prá ela o quanto a admirava. E o quanto, embora grana esteja difícil, eu queria muito aquele bloquinho, pela admiração que eu sinto por ela. E prá ficar bem visível, como uma lição para mim. Para que, enquanto o bloquinho existir, eu possa me lembrar, através dele, que não sou perfeita: Sou uma pessoa comum, como todas as outras, que, além de desejos, sonhos, esperanças e necessidades, também tem limites. E que, embora eu seja boa numa porção de coisas, tem muitas outras nas quais outros seres humanos, tão comuns quanto eu, são melhores que eu em uma porção de outras coisas.

Aquela moça vendendo bloquinhos num fim de tarde de clima ameno, foi uma forma dos deuses me ensinarem mais um pouco. Qual será o uso do meu bloquinho e do lápis coordenado dele? Anotarei algum novo projeto, o utilizarei no cotidiano, darei de presente a alguém? Eu não sei, mas tenho certeza de que, de algum modo, os deuses também me mostrarão o que devo fazer com ele. Por enquanto está alí, prova viva de sí mesmo, com uma anotação, na primeira página, dizendo a lição que aprendi com a existência daquele simples bloco de papel reciclado. E, é claro, peguei o contato da moça. Se o bloquinho dela já é maravilhoso do jeito que ela faz, imagina customizado? Espero ter chance de comprar muitos e muitos outros bloquinhos…

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