Jonathan Strange and Mr. Norrel

“I´m a North Englishman (…) Nothing would please me better than that my King should come home. It´s what I´ve wished for all my life” – Susanna Clarke – Jonathan Strange and Mr. Norrel, Bloomsbury Publishing, London – p.711

Hoje eu finalmente terminei de ler as 780 páginas de Jonathan Strange e Mr. Norrell. No climax, caía uma imensa tempestade lá fora, com relâmpagos e trovões muito próximos, confesso que eu quase parei de ler com medo da sincronicidade entre o que eu lia e a tempestade. Ao terminar um livro desse porte, que levei eras para ler, e que parei várias vezes no meio do caminho, a sensação foi… estranha. Por um lado, foi um alívio imenso acabar, porque vou poder ler outras coisas sem pensar no peso da leitura que deixei em pausa, por outro, bateu aquela tristeza, de ter chego ao fim e não ter mais. Duas emoções bem conflitantes ainda bem frescas dentro de mim, porque eu fechei o livro e vim, imediatamente, escrever no blog.

Jonathan Strange and Mr Norrell são os  dois únicos magos práticos, o Mago Novo e o Mago Velho, na Inglaterra do início do século XIX. Só que todo o passado da Inglaterra é diferente. ao invés do que lemos nos nossos livros de história, ou nas lendas do Rei Arthur, a Inglaterra do passado estava cheia de fadas e bruxos. O maior deles, o Rei Corvo, um mestiço de fada e humano que nasceu escravo e cresceu, conquistando reinos na Inglaterra e em Faerie, até se retirar da Inglaterra – e a mágica se retirar com ele, restando apenas os livros que descreviam as magias que eram então praticadas.

O livro tem uma série de excelentes usos de estruturas arquetípicas presentes em obras clássicas diversas: De antigas lendas e contos de fadas a Shakespeare tudo muito bem escrito e muito bem amarrado. Se inicia bem lentamente com um enredo que, embora muito atraente e cativante, é bem lento, e várias histórias paralelas, difíceis de compreender onde vão se cruzar, mas que trazem uma crítica de costumes muito interessante – e, em diversos pontos, engraçada – desde que eu comecei a ler eu não me furto de chamar uns e outros de “magos teóricos” . Mais para a frente o livro pega um ritmo mais rápido e no final tudo está muito bem amarrado.

Eu gostei muito do livro. É uma experiência de leitura que certamente vai me marcar – e eu já penso em uma releitura em algum momento nem tão distante (mas, não esse ano!) E o que eu fico a refletir, agora, são as razões que fazem os escritores criarem tantos passados mágicos para a Inglaterra, tantos “reis que retornam”? Para contar por alto, tem o Aragorn no Senhor dos Anéis, o Harry Potter, o Rei Corvo, além do próprio Rei Artur. Eu não lí Nárnia inteiro mas posso apostar que esse arquétipo também é usado à exaustão, e não acho que o caso em Fronteira do Universo seja exatamente o de um rei que retorna. O que faz com que tantos escritores pensem em mundos paralelos cheios de magia cujas histórias se cruzam com a história inglesa? O que povoa a mente dessas pessoas para que escrevam esse tipo de coisa?

E, extrapolando um pouco: Porque Portugal não tem tantas histórias com o arquétipo do “Rei que Retorna” se eles têm a figura de El-Rei Dom Sebastião como os ingleses tem a do Rei Artur? (ou serão dois tipos de crenças e folclore completamente distintos?) Será que o constante uso de mundos mágicos paralelos na literatura inglesa passa por algum processo mental que pode se relacionar com as dez mil destruições de Tokyo na cultura pop japonesa? O funcionamento da imaginação simbólica é realmente intrigante.

Por hoje é isso. O próximo livro na lista é a releitura de “Senhoras dos Anéis – Mulheres na obra de JRR Tokien”

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