Post escrito com lágrimas

Desculpem-me os leitores se estou escrevendo muito sobre esse assunto nos últimos dias. Mas um contato de facebook, que trabalha dando aulas para a rede pública de ensino, postou um retrato de como eu me sentia trabalhando com educação. Com palavras que, na época, eu jamais conseguiria escrever. Acho que, até hoje, é complicado dizer. Eu era uma morta-em-vida, precisava de ajuda do Chronos para ir ao trabalho, chorava no caminho de ida, parecia um bichinho assustado, para chegar lá e fingir que tudo estava bem, até a hora de fugir, digo, ir para casa, para descontar todas as minhas frustrações do dia, ter pesadelos e gritar durante a noite, para começar tudo de novo. Os sábados eram bons, mas os domingos, depois do meio dia, eram uma merda. Só depressão e choradeira, vontade de dormir e não acordar.

A merda é que eu sentia que, por mais que aquilo estivesse acabando comigo, eu precisava fazer aquilo. Por não ter como manter a casa de outra forma, pelo medo de ter de voltar prá casa da minha mãe, de ficar mais deprimida ainda sem trabalho, de não encontrar outro… Eu só entendi que deveria sair, de qualquer maneira, quando meu tornozelo zoou.

E olhe que, quando ele zoou, eu não imaginava que, dois anos depois, eu estaria ainda sentindo dores todos os dias, sem ter conseguido acesso a um ortopedista, e… sem poder dançar.

Não que eu fosse boa em dança, mas eu amava dançar. Me fazia muito bem, e, à parte uma professora de dança do ventre super sem noção que eu tive, que não sabia ouvir críticas, mandava professoras substitutas sem avisar e não corrigia a minha postura, o que fazia com que eu ficasse com dores na coluna horríveis a semana inteira, eu tenho lembranças maravilhosas sobre dançar. Como aquilo preenchia minha existência, me deixava feliz, o como eu e Chronos dançávamos e nos divertíamos juntos, era bom, o fluxo de energia era gostoso.

O que dizer para essa minha amiga? A vontade que eu tenho é dizer “sai logo dessa cilada, antes que te tirem o pouco que lhe resta, e você fique incapacitada de fazer coisas que você ama pelo resto dessa existência”. Eu não sei porque ela ainda não parou. Eu moro de aluguel, meu maior medo é não conseguir pagá-lo. Ela mora numa casa própria. Ok, ela tem um filho. Mas ela também tem família, os avós não vão deixar o menino passar fome. Eu, mais que ninguém, sei como é duro não ter a menor idéia de que rumo tomar já não estando mais na adolescência. Mas poxa, por que se condenar a viver desse jeito, se você tem livre arbítrio?

Tudo o que posso fazer é rezar aos deuses para que ela não tenha nenhuma sequela física, como a que eu tive, e que ela possa dançar até o último dia de sua vida, ao contrário de mim. E eu posso chorar, por mim, por ela, por todas as pessoas inteligentes e talentosas que sofrem por causa dos absurdos de nosso mundo, por não terem suas profissões valorizadas, por não poderem fazer aquilo que a alma realmente lhes pede, já que tais atividades “não geram divisas”.

E o que eu posso fazer por mim, pela minha não realizável vontade de dançar, que cresce a cada dia, que está quase se tornando incontrolável, mesmo com a dor incessante no tornozelo, que só piora com esse clima mais frio de outono? Não tenho uma resposta razoável. Por enquanto, vou evitando músicas que aumentem muito a vontade, vou tentando esquecer os planos de tomar uma dose alta de analgésicos e dançar até não poder mais mesmo sabendo que isso vai me custar pelo menos uma ida ao ps, 5 dias de anti-inflamatório, 20 dias de muita dor e tornozelo enfaixado, e sabe-se lá quanto tempo mancando. Tempo que eu não posso perder. Porque preciso encontrar um jeito de pagar as contas do mês que vem.

Se eu tivesse tido o mesmo problema de tanto dançar, praticar yoga, ou fazer alguma outra coisa que me desse prazer, acho que seria mais fácil de entender, de encarar, ou, pelo menos, eu diria prá mim mesma que era uma consequencia por ter aproveitado ao máximo e realmente vivido minha juventude. Mas como aconteceu comigo forçando meu corpo a fazer uma coisa que não me dava prazer, é muito complicado prá mim. E como eu vivia que nem uma zumbi já a um certo tempo, nem aproveitei tudo o que poderia ter aproveitado, mas hoje não posso mais fazer. E estou aqui, com quase 29 anos, me locomovendo como uma velhinha de 80, por algo que não valia à pena.

Se você, meu leitor, gosta de dançar, e pode dançar, ponha toda a sua alma na dança e dance por mim. E se divirta por mim. E lembre-se de desfrutar dos pequenos prazeres da vida enquanto você pode. Porque, por mais que eles possam estar sempre alí, mesmo que você ainda seja jovem, eles podem se tornar inacessíveis a você, a qualquer momento.

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Galega (@justmiiin)
    mar 20, 2013 @ 10:52:34

    Comment de Lothuile ( agalega.blogspot.com.br ):

    Ah, eu lembro do tempo que dei aula em escola estadual, foi um sufoco, ainda mais que era no período noturno! :-/
    Bem, agora estou realizada dando aulas em escola de idiomas (português para estrangeiros), mas lendo teu texto lembrei o quanto amo o ballet e a natação e uma luzinha acendeu aqui dentro, quero e creio que, realmente, preciso voltar para ambos…
    E tudo dará certo quanto a tu poder voltar a dançar, eu acredito e estou torcendo por você!
    Saudades de ti e de muita gente, sentindo falta das tardes divertidas… 😦
    Beijo grande!

    Responder

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