Alem das núvens do sonhar

Jeremias nasceu pobre, mas sempre teve um sonho, o sonho de ver o mundo de cima. Dizem que as pessoas pobres pensam pequeno, bom em partes isso é verdade, mas não é assim com a maioria. Jeremias nunca havia saído da sua vila, do seu canto de mundo, da sua rotina, até um dia, aos 5 anos de idade, ver uma foto de uma montanha. E então ele colocou em sua caixola que era ali que ele iria realizar o motivo de sua existência. Ele tinha que subir aquela montanha.

Ele aprendeu a escrever, mesmo sem ter alguém para apoia-lo em casa. Seu pai dizia que ele tinha que trabalhar, para ajudar a família, pegar papelão e latas de alumínio, garrafas de vidro e coisas desse tipo. Não sobrava tempo para estudar. Não sobraria, se Jeremias fosse um rapaz de vontade fraca, porque aquela imagem da montanha queimava em seu coração.

Ele aprendeu a fazer contas, mesmo sem ir para a escola. Melhor que qualquer um de sua família pelo menos. Bastou colocar o pensamento em ordem e perceber como as coisas no mundo funcionam. A quantidade de latas, os números nas caixas, somar e subtrair leva a multiplicar e dividir. E logo seu pai estava feliz da vida com o filho, pois Jeremias agora negociava com o dono do ferro velho e as migalhas já estavam se transformando em pão. Isso foi só um pequeno passo para Jeremias, afinal de contas, com isso conseguiu convencer seu pai a deixa-lo ir para a escola.

Agora Jeremias poderia estudar melhor. Prestava a atenção em todas as aulas e em tudo o que podia aprender com os livros. E logo tomou gosto pela Leitura. Adorava os clássicos brasileiros, mas gostava dos autores estrangeiros também. Lia sempre que podia, o que significava obviamente, na maior parte do tempo que o pai não estava vendo. E logo começou a frequentar a igreja, já que podia ler a bíblia. E foi lendo a bíblia que ele viu sua montanha se aproximar cada vez mais.

Não que a bíblia dissesse pra ele que quem tem fé vai a montanha, ou a montanha vai até alguém, mas ali ele simplesmente aprendeu a ter fé em algo, que as vezes para muitos, está tão distante quanto uma montanha. Seus pais estavam orgulhosos dele, viam que o filho era diferente e oravam a deus pela dádiva que tiveram. E aos poucos Jeremias foi se tornando o homem da família.

Ele começou a trabalhar no mercado, não precisava mais coletar recicláveis. Ele era o aluno mais prendado, e não precisava mais ler escondido. Mas a medida que sua montanha foi crescendo na sua frente, a favela foi se tornando cada vez menor para seu espírito inquieto e cheio de vontade. Aos 15 anos foi morar sozinho numa pensão no centro da cidade.

Jeremias era qualquer coisa, menos ingênuo. Ele sabia da maldade do coração humano, porque já tinha convivido com pessoas más na favela, e por isso não teve problemas para lidar com a malandragem dos becos e esquinas da velha cidade. E de empacotador passou a caixa… E de aluno passou a universitário… E de morador de pensão passou a inquilino de uma casa maior.

E aos 28 anos de idade, escalar a montanha era uma metáfora tão grande em sua essência, que executar o ato era uma questão meramente metafísica. Mas o seu pensamento esteve tanto tempo voltado a isso, àquela pequena foto de infância que nunca lhe saiu do pensamento, tanta energia dedicada apenas a um único fim, que sua chance veio na forma de um convite de amigos, para escalar exatamente a montanha de sua infância.

E ele escalou, subiu pedra por pedra, e quando o caminho se tornou difícil para os outros, para ele era apenas mais um declive. E quando as pedras começaram a esfarelar em suas mãos, seus sonhos estavam tão firmes quanto a própria rocha. Muitos disseram que não passariam dali, mas Jeremias era o homem da realização, era o ser que podia tudo, e ele foi adiante. Ele, com seus próprios esforços chegou ao topo, cansado, suado, esfolado, mas chegou. E lá em cima, no platô mais alto, ele olhou o mundo de cima, e acima dele as nuvens e o céu azul, e tudo aquilo era místico e maravilhoso.

Mas como qualquer outro ser humano, ele se questionou: E agora, o que eu faço?

O vento soprou no seu rosto, o sol brilhou no horizonte, e como por um milagre inexplicável, ele achou no chão uma outra foto, em baixo de uma pedra como se estivesse ali apenas esperando por ele, de uma montanha ainda maior, de um desafio ainda mais instigante, de um sonho ainda mais alto.

 

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