“cuidado moça, o sinal tá fechado”

Em primeiro lugar, uma explicação para o post pós-moderno de ontem: eu dormi, sem postar. O chronos me acordou e deu o laptop (sem os óculos) para eu postar rapidinho antes de voltar a dormir, e eu nem tinha acordado totalmente. Eu procurei com calma o underline no teclado, postei, achei o borrão azul que eu sabia que era o publish, e devolvi para ele, que teve uma crise de riso.

Mas, enfim, se eu não tivesse desmaiado de cansaço ontem, ia dizer que eu saí, e uma das coisas que eu vi no meu passeio me deixou estarrecida: Uma ciclista, com seus cabelos loiros esvoaçantes, passou no sinal vermelho, com cerca de umas oito pessoas atravessando a rua, inclusive duas senhoras bem velhinhas, um cara com um carrinho de mercadorias, um com uma mala, e duas moças com carrinhos de feira.

A sorte foi que eu ainda estava começando a cruzar a rua quando ela fez isso, porque eu estava olhando para a frente e só a vi quando já estava atravessando a faixa, já que, devido aos longos anos de óculos com grau alto, minha visão periférica é péssima. Se eu estivesse na mesma trajetória que ela, teria sido atropelada.

Eu achei a atitude da ciclista muito desrespeitosa. Em primeiro lugar, ela foi desrespeitosa às pessoas que estavam atravessando, na faixa de pedestres e no sinal verde, e colocou em risco a integridade delas. Em segundo lugar, ela foi desrespeitosa com ela mesma, pois poderia ter passado com a bicicleta por cima de um dos carrinhos de compras e sido arremessada dela, o que facilmente geraria um traumatismo craniano já que ela estava sem capacete, ou poderia ter tido um acidente com um carro que estava cruzando a rua no mesmo sentido que os pedestres (e, de fato, tirou uma “fina” de uma perua escolar).

Ela também foi desrespeitosa à legislação; temos um código de trânsito com regras, em tese, compreendidas e utilizadas por todos os que andem na rua, que têm protocolos de onde e como andar; mesmo crianças pequenas são ensinadas sobre as cores dos semáforos, seus significados e as possiveis consequencias de cruzar a rua desrespeitando-os, mas, para ser sincera, esse foi o desrespeito que menos me surpreendeu, pois todos nós sabemos que parte do jeito de viver dos BRs é só respeitar regras quando elas os beneficiam.

A minha inignação foi maior por causa do desrespeito a três classes muito mal compreendidas na nossa sociedade: Ciclista, mulher, loira. Os ciclistas, em geral, mesmo pedalando com segurança e seguindo as leis, já são MUITO mal vistos em São Paulo; os motoristas, no geral, por mais esclarecidos e mente aberta para outras coisas que sejam, acreditam que eles atrapalham o trânsito, não respeitam lei nenhuma e só fazem algazarra; os pedestres os temem acreditando que são irresponsáveis, saem atropelando tudo, e também devido ao grande número de criminosos que passam perto da calçada com suas bicicletas e assaltam pessoas. Nossa personagem loira de cabelos esvoaçantes acaba por corroborar todos esses estereótipos, e eu tenho certeza que coisas ruins sobre “os ciclistas” passaram na mente das pessoas que cruzaram com ela (até porque elas passaram pela minha mente que, apesar de que, em geral, eu sou favorável aos ciclistas).

Ao fazer esse tipo de coisas, ao meu ver, ela desvalorizou também a classe “mulher”. Todos nós sabemos que tem gente que pensa que a única coisa que mulher sabe pilotar direito é o fogão, e outras coisas sem sentido como essas. Muitos de nós fazemos tentativas de quebrar esses estereótipos idiotas e mostrar que mulheres e homens são igualmente hábeis e capazes, que todos os seres humanos, independente do sexo, devem ser tratados com dignidade e ter direito de escolha, etc, etc. Enquanto muitas pessoas estão tentando valorizar e ser valorizadas, com justiça e ética, algumas como nossa personagem loira estão por aí fazendo besteiras e corroborando com estereótipos de gênero e preconceitos. E todos sabem o que dizem o estereótipo de gênero em relação às loiras, não é? Bem, ela definitivamente correspondeu ao estereótipo ao fazer uma coisa que até uma criança de quatro anos sabia ser idiota, perigosa, ilegal e antiética. Em fração de segundos, nossa ciclista loira reforçou preconceitos, estereótipos, e colocou várias vidas em risco.

E tudo o que eu pude fazer foi gritar um “Ô ciclista, cuidado, o sinal está fechado!”, e postar nesse blog um dia depois, porque no dia que isso aconteceu eu estava exausta. Sinceramente espero que ela tenha escutado, e se envergonhado.

Sabemos que nenhum homem é uma ilha e blá blá blá. Enfim, quando for tomar uma atitude, principalmente no caso de uma “coisa de BR” como essa, lembre-se que você não está só representando você mesmo, mas tudo o que você aparenta ser (inclusive um BR :p – essa categoria também é preconceituosa e estereotipada, mas eu não estou dizendo que todos os brasileiros são BR´s, viu? Mas sim, que tem muito mais BR no brasil que eu gostaria, porque detesto esse tipo de atitude!) . O melhor mesmo é ter bom senso, equilíbrio, e não fazer nada que seja ilegal ou arrisque a vida das outras pessoas.

Como eu queria que a ciclista loira percebesse isso! E todas as outras iguais a ela também.

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3 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Ale Dossena
    abr 17, 2013 @ 09:06:54

    Bom, depois das barbaridades que a gente vê na TV (como o caso da van escolar aqui em Curitiba que deu a ré, atropelou um idoso e não viu nada) só tenho algo a dizer sobre o trânsito no Brasil (principalmente nas grandes cidades): LAMENTÁVEL!

    Responder

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