Homem de verdade…?!?

Hoje eu dei um passeio para aproveitar o clima maravilhoso de Sampa-Baylon nessa quarta-feira, e me deparei com uma propaganda num dos trens da linha verde. Trazia um homem com um cartaz na mão, dizendo “homem de verdade não bate em mulher”. Eu cheguei mais perto, pois o cartaz me chamou a atenção. A propaganda dizia que o tal homem não era um anônimo, mas um cara com um nome que me lembrava mitologia. Sei lá se ele chamava “centauro”, “ciclope”, ou algo assim. Era uma propaganda de uma organização que eu tenho a imagem mental mais ligada com pesquisas de economia mundial, que de ação social. Não lembro mais se era o BID, o BNDES ou o Banco Mundial (sei que não era o FMI nem a OCDE). O cartaz dizia:

“O ***coloque aqui o nome do organismo que eu esqueci**** quer ajudar a acabar com a violência contra a mulher no Brasil. Se você é homem de verdade, faça como o ***nome do cara com nome de monstro mitológico*** e não bata em mulher.” Embaixo da foto do cara, em letras menores, lia-se “se você, ou algum de seus amigos, é homem de verdade, tire uma foto com um cartaz como esse, e mande para o twitter @algumacoisa, usando a hastag #homemdeverdade”.

Não vou nem discutir o uso do meme de Facebook “pessoa-segura-cartaz” que começou com os menininhos dos EUA pedindo um cachorro para o pai, e foi fantástico no movimento #ForaFeliciano, com aqueles cartazes de “sou isso e aquilo e Feliciano NÃO me representa”. Vamos discutir algumas questões mais básicas que pipocaram na minha cabeça.

Em primeiro lugar, tenho que dizer que sou totalmente à favor do fim da violência doméstica, ao fim da violência de gênero, ao fim da violência obstétrica (deviam fazer uma campanha “obstetra de verdade não intervém desnecessáriamente no parto”), e ao fim das outras nuances de violência que afetam a mulher enquanto gênero. E que eu também acho que homem que bate em mulher não merece respeito, e, portanto, não vou criticar a boa intenção da campanha…

Maaaaaaaaaas, vamos pensar em algumas coias. O que é um “homem de verdade?” um machão? Um cara que peida e arrota em público e grita que nem um condenado em jogo de futebol? Um bombadão de academia? Qualquer ser humano nascido com um pênis? Ou você tem que ser conhecido e ter um nome que lembra mitologia prá ser homem de verdade? Usando essa categoria “homem de verdade” você está pressupondo que existe um “homem falso”, um “homem de mentira?”   um homossexal masculino, ou um homem trans, se vêem como nesse quadro? Eles são “homens de verdade?” e se não são, podem bater em mulher? E os homens que batem em mulher e, portanto, não são homens de verdade, são o que? Eu achei essa coisa de “homem de verdade” bem ofensiva, sabe?

Agora vamos à segunda parte da sentença “não bate em mulher”. Quer dizer, em mulher não pode bater, mas espancar o mendigo, dar umas palmadas no filho e torturar animais pode, né? Socar homossexual prá “ver se o cara vira homem” como é a postura de muitos idiotas por aí também, né? É, amigos, essa propaganda foi SUPER bem intencionada, mas, de boas intenções o inferno está cheio… é uma propaganda ofensiva e preconceituosa…

Homem de caráter não bate em mulher… nem em outro homem, nem em criança, nem em animal… E não só homem do gênero masculino… SER HUMANO de caráter não precisa recorrer à violência física para resolver problemas… E a violência de gênero não é só física, viu? Ela começa aí, nos preconceitos, nos pré-julgamentos sobre o que é ser homem/mulher “de verdade”.

Agora que já deixei minhas primeiras impressões, de usuária do metrô, sobre a propaganda, deixa eu ver se a encontro na internet…

Depois de meia hora de pesquisa, achei exatamente o cartaz que vi no metrô. Parece que 10 celebridades posaram para a campanha, mas só o de dois atores globais gostosinhos são fáceis de serem achados. O que eu vi foi esse aqui:

Aliás, não que eu possa falar muito sobre nicks, já que o meu é de uma floresta e eu detesto mata :p Mas não é meio irônico um cara chamado “Minotauro” com um cartaz escrito “homem de verdade…” etc? Para quem não sabe, o Minotauro é um monstro da mitologia grega, que era meio homem meio touro, filho de Pasifae, que copulou com um touro. O monstro comia (não é no sentido sexual, mas no sentido alimentar mesmo) seres humanos, e vivia trancado no labirinto de Creta.

Eu ainda não descobri quem é esse cara (se alguém souber, por favor, poste um comentário, estou curiosa!) mas achei bem chato isso de ter demorado a achar o cartaz dele enquanto os cartazes estrelados pelos atores branquinhos e bonitinhos são encontráveis rapidamente… mais uma prova de como as pessoas são preconceituosas…

Já falei um pouco mais sobre gênero, estereótipos e respeito aqui, mas sobre um ponto de vista completamente diferente. Mas, se você gostou desse post, talvez goste do outro. O Chro tem um post sobre violência de gênero aqui.

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Ale Dossena
    maio 16, 2013 @ 09:13:11

    Adorei seus comentários Lórien!

    Nem vou ser repetitiva sobre ser contra qualquer tipo de violência, só vou destacar que acho lamentável a influência da mídia na vida do brasileiro (seja bem ou mal intencionada). Sim, porque quando “mídia” deveria traduzir-se como informação, resume-se em manipulação. Abomino!

    O modelo da foto é um lutador de MMA, chama-se Antonio Rodrigo Nogueira e é conhecido como Minotauro.

    Falando em Minotauro, posso viajar na maionese? Mudando TOTALMENTE de assunto, lembrei que um dos livros do Monteiro Lobato que eu mais gostava de ler na infância era o que contava a história do Minotauro (acho que chamava Os Doze Trabalhos de Hércules)….rs. Tudo a ver o comentário né? :S

    Nossal, e hoje outro comentário que virou um post ! 😛

    Beijão e ótimo dia !

    Resposta

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