Hear the Voice – William Blake

William Blake
Hear the Voice

HEAR the voice of the Bard,
Who present, past, and future, sees;
Whose ears have heard
The Holy Word
That walk’d among the ancient trees;

Calling the lapsèd soul,
And weeping in the evening dew;
That might control
The starry pole,
And fallen, fallen light renew!

‘O Earth, O Earth, return!
Arise from out the dewy grass!
Night is worn,
And the morn
Rises from the slumbrous mass.

‘Turn away no more;
Why wilt thou turn away?
The starry floor,
The watery shore,
Is given thee till the break of day.

Fernando Pessoa – Ulisses

O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo –
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade.
E a fecundá-la decorre.
Embaixo, a vida, metade
De nada, morre.

in: Mensagem.

Ok que eu tenho a impressão que, até esse um ano e um dia acabar, quase todos os poemas do Mensagem vão estar citados aqui, mas fazer o que se é muito bom? Eu, particularmente, amo esse livro, gosto do jeito que Pessoa constrói a história, mítica e factual, de Portugal através dos poemas, utilizando de muitos níveis simbólicos. Como eu adoro história, simbologia E poesia, não tinha como ser diferente.

Esse poema aparece bem no inicio do livro, e alude ao fato de que, de acordo com certas lendas e tradições, Ulisses teria em sua volta à Ítaca passado pelo que depois seria Portugal – ou, até mesmo, fundado a cidade de Lisboa. E, de “bonus”, além dessa interessante informação, ganhamos nesse poema uma reflexão de Pessoa sobre o entrelaçamento entre mito e realidade, e como um não existe sem o outro 😉

Mendigo

Mendigo

Morrer, é ver a vida se esvair inutilmente a cada segundo.
Viver é celebrar a vida intensamente a cada momento que se tem consciência.
Sonhar é viver no seu mundo a parte da realidade.
Acordar é não saber o que fazer assim que se toma a decisão de ser quem se é.

Hoje eu me vi cansado. Cansei das coisas que tenho e que vejo, cansei de ser aquilo que não sou e cansei de falar sozinho para que apenas os ventos etéreos me escutem.
E decidi que quero ser poeta, sentado no chão sujo declamando aos pombos e as baratas meus versos saudosos de quando eu me considerava importante pra algo na vida.
Cheguei a conclusão de que todo o meu vasto conhecimento, não é interessante pra mais ninguém, senão eu próprio e minha miríade de amigos imaginários.
Vi, no espelho embaçado das aguas turvas que correm na sarjeta, a Mendicância passar por mim e acenar suavemente, e vi que ao meu lado ela se instalou e passamos horas a fio conversando sobre amenidades e filosofias a muito esquecidas pela humanidade.
Mas tudo se foi.
Os pombos bateram asas e as baratas retornaram para seus bueiros.
Dormi, e meus amigos imaginários se tornaram reais, cada qual com seus deveres de pessoas reais e foram cuidar das suas vidas reais, me deixando para traz.
E a Mendicância, minha querida amiga, recebeu alguns bons trocados de um senhor alto e bem de vida, e foi-se com ele toda sorriso e sensualidade.
E no fim, novamente, apenas eu fiquei.

Acordar é o prenuncio do fim…
Sonhar é despertar para a loucura…
Viver é sorrir para o mundo…
Morrer é começar denovo.

Héliton Junior

— — —

Esse texto foi retirado do meu antigo (R.I.P.) Multiply… que ainda existe, e que eu não vou me esforçar em nada pra fazer backup do que ainda está la! :p

Menino

Eu andei por cima da pedra,
E vi uma ponte escura,
Acima de um vale iluminado,
por cima de água pura.

Eu cruzei esta enorme ponte,
e adiante eu vi um menino,
ele era eu ontem,
ele era pequenino.

O menino me deu uma bala
era doce e saborosa,
tinha gosto de inocência
e cheirava a brincadeira gostosa.

Eu andei mais adiante,
pelo caminho que me mostrou,
eu cheguei a uma caverna,
onde lá não havia som.

A caverna era escura,
E eu andava nela a esmo,
não sabia onde pisava,
tinha medo de mim mesmo.

Ela era o meu futuro,
nada tinha acontecido,
havia água rolando,
havia eu caindo.

Na verdade só era escuro,
porque também era o presente,
e eu não via nada a minha frente,
porque ainda tinha olhos de menino.

Héliton Junior

— — —

Escrevi essa poema a muito tempo atraz, nem lembro quando. E lendo ele hoje, eu vejo o quanto ele faz sentido na minha vida. Muitas coisas eu ainda olho com os olhos de um menino.

Choveu

Choveu,
e a chuva caia em minha cabeça desnuda com o impacto pesado do pensamento,
aquele que só a água que cai do céu sabe cair.
Choveu,
e lá no céu alguém ria as pencas,
se divertindo quando virou o balde de água em cima de nossas cabeças quentes pelo estresse megalopolitano.
Choveu,
e todos os ácidos do ar se misturaram com as minúsculas gotículas,
fazendo uma dança pervertida e molhada,
e então se misturaram também com os gazes mais nobres de nossa atmosfera.
Choveu,
e aqui no chão a poeira levantou, olhou pela janela, saudou a chuva e voltou a se deitar no asfalto,
que antes era quente, fervente com o calor do piche e da borracha,
e agora é frio e úmido como a terra tem de ser.
Choveu, choveu tanto, que de tanto chover agora não chove mais,
vão se as núvens cor de chumbo, pesadas como tal,
e fica a brisa úmida e leve, dando espaço para o que restar dos raios do sol.

Héliton Junior

— — —

A Ló reclamou hoje que eu só tenho postado poemas de outros autores, então resolvi escrever alguma coisa minha! 😀

The Tiger – Willian Blake

The Tiger – Willian Blake

Tiger! Tiger! Burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?

In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare seize the fire?

And what shoulder, and what art,
Could twist the sinews of thy heart,
And when thy heart began to beat,
What dread hand? And what dread feet?

What the hammer? What the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? What dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?

When the stars threw down their spears,
And water’d heaven with their tears.
Did he smile his work to see?
Did he who made the Lamb make thee?

Tiger! Tiger! Burning bright
In the Forests of the night,
What immortal hand or eye,
Dare frame thy fearful symmetry?

— — —

Um poema que me inspira força.

Terceiro – O Conde D. Henrique (Mensagem – Fernando Pessoa)

TERCEIRO / O CONDE D. HENRIOUE
Mensagem – Fernando Pessoa

Todo começo é involuntario.
Deus é o agente.
O herói a si assiste, vário
E inconsciente.
À espada em tuas mãos achada
Teu olhar desce.
“Que farei eu com esta espada?”
Ergueste-a, e fez-se.

— — —

Um dos meus poemas favoritos do Mensagem.
Todo ser que põe sua dúvida no lugar certo, é por si só, um herói.

Selinho