Fernando Pessoa – Ulisses

O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo –
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade.
E a fecundá-la decorre.
Embaixo, a vida, metade
De nada, morre.

in: Mensagem.

Ok que eu tenho a impressão que, até esse um ano e um dia acabar, quase todos os poemas do Mensagem vão estar citados aqui, mas fazer o que se é muito bom? Eu, particularmente, amo esse livro, gosto do jeito que Pessoa constrói a história, mítica e factual, de Portugal através dos poemas, utilizando de muitos níveis simbólicos. Como eu adoro história, simbologia E poesia, não tinha como ser diferente.

Esse poema aparece bem no inicio do livro, e alude ao fato de que, de acordo com certas lendas e tradições, Ulisses teria em sua volta à Ítaca passado pelo que depois seria Portugal – ou, até mesmo, fundado a cidade de Lisboa. E, de “bonus”, além dessa interessante informação, ganhamos nesse poema uma reflexão de Pessoa sobre o entrelaçamento entre mito e realidade, e como um não existe sem o outro 😉

Selinho