Um outro lado da moeda

O Chronos já escreveu um pouco, há quase dois meses atrás, sobre o poder daquilo que falamos. E eu, outro dia, estava comentando sobre uma conversa que tive com uma amiga acerca de conseguir aquilo que se deseja. Há uns dias atrás, estava tendo outra conversa, com outra amiga, e, inspirada nela, resolvi deixar umas palavras de advertência, exemplificadas por uma pequena lenda da mitologia helênica:

Eos tinha um esposo mortal, chamado Titonus, que ela amava muito. Então, ela pediu a Zeus que transformasse o amado dela em um imortal, e ele concedeu a imortalidade a Titonus, conforme Eos tinha pedido. Mas, como ela não falou nada sobre a juventude eterna, Titonus continuou envelhecendo normalmente. Até que estava tão, tão velhinho, que não conseguia mais se mover, todo o corpo doía, e ele ficava só reclamando, e Eos ficou muito triste, porque o amava e pretendia viver com ele por toda a eternidade, mas ele estava sofrendo muito. Há versões nas quais ela o trancou numa torre dourada (ou algo assim), outra nas quais os deuses tiveram piedade dele e o transformaram num insetinho, uma espécie de grilo. Mas o fato é que Eos se entristece até hoje por causa de um pedido mal formulado.

Em outras palavras, o universo e os deuses não são burros, mas, muitas vezes, são muito literais em suas respostas aos pedidos que fazemos, ou fazem o que queremos, mas não do jeito que imaginávamos. Então, se pedimos “só queríamos ficar uns dias em casa”, pode ser que fiquemos doentes de um modo que não precisemos sair de casa, mas estejamos na cama agonizando e não consigamos descansar ou fazer mais nada (já aconteceu comigo), ou, se pedimos “tal emprego”, pode ser que tenhamos o dito cujo, mas o salário seja baixo, ou não gostemos do emprego do jeito que imaginávamos (também já aconteceu comigo), e por aí vai. 

Então, deixo aqui essas palavras de alerta: Tomem cuidado com o que pensam e pedem, e, quando forem pedir alguma coisa, ou sejam bem específicos com o que vocês pretendem para aquele pedido, mas deixando espaço para os deuses encontrarem o que é melhor naquele campo (um exemplo funcional: “um emprego que me traga prazer, prosperidade financeira, e cujo local de trabalho seja próximo à minha casa”).

Precisamos de heróis nacionais?

Quando digo heróis nacionais, quero dizer personagens, míticos ou históricos, que sirvam de modelo e inspirem as pessoas em relação ao nacionalismo.

Na minha opinião, todas as nações precisam deles. Na minha opinião, o Brasil ainda não tem heróis nacionais. Talvez Dom Pedro I, mas, infelizmente, a imagem dele foi muito denegrida.

Estou postando isso hoje pois hoje é dia de Tiradentes. Alguém se lembrou? Como caiu no domingo, quase ninguém. A gente só lembra de Tiradentes quando o dia 21 de Abril cai no feriado prolongado. E aí, já tem todo o desmerecimento: “É, na verdade Tiradentes não só não ajudou em nada no processo de independência, como foi “boi de piranha”: Não podiam dar a punição exemplar em nenhum dos outros inconfidentes, porque eles eram ricos e seria arranjar mais encrenca. Então pegaram o mulato pobre, enforcaram e esquartejaram.” Tem muita verdade nessa afirmação. Assim como todos os heróis, de todas as nações, tiveram problemas, e muitos deles foram heróis por acaso, ou sua imagem não corresponde ao personagem histórico real. Só que se você não ignora certos tipos de detalhes e eleva outros, você acaba sem herói nenhum.

Não estou falando que Tiradentes, os bandeirantes (que possivelmente foram os primeiros “BRs” no mal sentido, e que, portanto, com o tanto de BRs no brasil poderiam ser candidatos fortes) , ou qualquer outro devesse ser o herói nacional. Só estou refletindo um pouco sobre isso. Não faço idéia de quais personagens históricos brasileiros poderiam realmente se tornar heróis nacionais, ou de como isso poderia ser feito. São só pensamentos aleatórios, apesar de que eu gostaria de estudar e aprofundar-me mais sobre isso um dia….

 

PS: Vocês estão acompanhando as notícias sobre a pesquisa que exumou D. Pedro I, D. Amélia e a Imperatriz Leopoldina? Eu tinha guardado uma outra matéria muito interessante sobre isso, mas não encontrei. Essa aqui está ótima também, então, se você quer saber mais sobre o assunto, aproveite 🙂

Live – The Dolphin’s Cry

Uma musica que fala de amor, não de qualquer jeito ou de qualquer maneira, nada de “eu te amo sua linda…” Mas fala de amor, porque veladamente fala de Aphrodite.

Mas na verdade o que me chama a atenção para essa musica é só esse trecho aqui:
(você pode conferir a letra na integra nesse link. Desconsidere a tradução, não está muito boa.)

“love will lead us, alright /  love will lead us, she will lead us / can you hear the dolphins cry? / see the road rise up to meet us / it’s in the air we breathe tonight / love will lead us, she will lead us..
l ife is like a shooting star / it don’t matter who you are / if you only run for cover, it’s just a waste of time / we are lost ‘til we are found / this phoenix rises up from the ground / and all these wars are over…”

Fernando Pessoa – Ulisses

O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo –
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade.
E a fecundá-la decorre.
Embaixo, a vida, metade
De nada, morre.

in: Mensagem.

Ok que eu tenho a impressão que, até esse um ano e um dia acabar, quase todos os poemas do Mensagem vão estar citados aqui, mas fazer o que se é muito bom? Eu, particularmente, amo esse livro, gosto do jeito que Pessoa constrói a história, mítica e factual, de Portugal através dos poemas, utilizando de muitos níveis simbólicos. Como eu adoro história, simbologia E poesia, não tinha como ser diferente.

Esse poema aparece bem no inicio do livro, e alude ao fato de que, de acordo com certas lendas e tradições, Ulisses teria em sua volta à Ítaca passado pelo que depois seria Portugal – ou, até mesmo, fundado a cidade de Lisboa. E, de “bonus”, além dessa interessante informação, ganhamos nesse poema uma reflexão de Pessoa sobre o entrelaçamento entre mito e realidade, e como um não existe sem o outro 😉

Água

Mais chuva lá fora – muita água caíndo do céu – e eu, aqui, pensando no que escrever, enquanto bebo um gole d´agua da minha garrafinha, tranquilamente.

A água, por suas características, tem uma série de significados diferentes – e, às vezes, ambíguos, na imaginação simbólica.  Na magia e no pensamento mágico, tantos outros. Mas uma coisa está clara e é válida, nos dois, assim como nos estudos científicos. A água está relacionada à vida e à morte. Os portais, de entrada e de saída desse mundo, ambos, tem relação com a água.

Ainda há muita gente, até hoje, que acredita que o início do parto é, necessariamente, com o rompimento da bolsa de águas. Somos seres aquáticos po cerca de 42 semanas antes de virarmos seres terrestres. Se não consomem água de qualidade, os seres vivos estão sujeitos a uma série de desfunções – e podem até morrer.

Que dizer, então, da relação da água com a morte? Para algumas correntes de pensamento mágico, o elemento água está ligado ao portal dos ancestrais. Não é à toa que temos tantas lendas sobre os rios do submundo, e, certamente, já ouvimos falar do barqueiro Caronte que conduz as almas. Partir para o mar aberto, na imaginação simbólica, pode, muitas vezes, significar ter falecido, ou ir de encontro à morte.

Sem as chuvas, os rios secam, inviabilizando a vida. Com chuvas em excesso, ocorrem as enchentes, perde-se plantações. Por esse carater duplo, e por seu caráter líquido, a água é, muitas vezes, considerada um elemento traiçoeiro na imaginação simbólica. Como tudo no mundo, precisamos de água na medida certa.

Um comentário sobre Aredhel

Eu postei isso, no meio de outras coisas, na lista da Toca São Paulo do Conselho Branco agora a pouco – e decidi copiar aqui para manter registrado. Vou editar algumas coisas, para fazer um pouco mais de sentido:

Nos idos de 2004/5/6 eu era absolutamente fascinada com a história da Aredhel – uma personagem de JRR Tolkien, que aparece na obra “O Silmarillion” –  por ela ter ousado sair de casa e seguir o seu próprio espírito livre mesmo morando no lugar mais bacana da Terra-Média da época, e como ela era altiva, livre, soberana e inquieta – inquietação era a palavra da Aredhel prá mim.

Naquela época, eu quem escrevi o verbete sobre ela no livro “Senhoras dos Anéis: Mulheres na obra de JRR Tolkien”, de organização da Rosana Rios, publicado pela Devir.  Lendo, deve dar para sentir que eu não fui muito imparcial, mostrei mesmo que gostava dela e os motivos pelos quais eu gostava e hoje, embora eu ainda ache esse um conto muito bacana, eu ão me identifico mais com a Aredhel como eu me identificava naquela época.
E essa identificação vinha muito da fase em que eu estava – de algum modo, a casa dos meus pais era minha Gondolin, e eu estava dando caminhadas prá cada vez mais longe e me tornando cada vez mais independente, e me sentia muito livre e segura de mim mesma – só que o meu lindo elfo ferreiro não é, definitivamente, um dominador sem noção como o Ëol, mas um cara que realmente me faz aprender muito a cada dia – e com o qual eu tenho um relacionamento muito bacana, de iguais e parceiros. Com meus quase 29, muito bem casada, e tendo que pagar as próprias contas, a Aredhel não é mais meu tipo de heroina preferida – e, de algum modo, eu realmente espero que quando eu tiver um filho eu saiba educá-lo para que ele não vire um Maeglin da vida.  No fundo, hoje eu acho que boa parte do que ela tinha não era liberdade e um espírito inquieto, era teimosia e arrogância mesmo. Duas características negativas contra as quais, aliás, eu luto todos os dias.

A imagem que ilustra esse post se chama “Ëol Welcomes Aredhel in His House” e foi pintada pelo fabuloso Ted Nasmith, que tem uma bela edição ilustrada d´O Silmarillion. Na sua primeira vinda ao Brasil, eu tive a deliciosa oportunidade de assistir uma palestra com ele, que é uma pessoa para lá de bacana. Tirei a imagem daqui.

Selinho