Morto… Denovo!

Os olhos desatentos que passam ao lado do muro branco, cercado de arame laminado muito bem posicionado, não percebem a movimentação da vida que ali existe. Dizem os zeladores daqueles que se foram que aquele arame era para manter os vandalos e os depredadores do lado de fora, mas a mente é sagas, no fundo do coração, nos recônditos mais escondidos da mente humana, há de se pensar que aquele arame era para manter o que está dentro, dentro.

E assim, sem muita pressa, foi que o velho general Petrônio se sentou no braço de sua própria estátua, naquela madrugada gélida e úmida. Ele não sabia como, mas estava agora do lado de fora de sua cripta. Ela havia sido aberta recentemente por um casalzinho gótico amante das aventuras desvairadas e irresponsáveis da adolescência. O casal, que se não fosse bem jovem, ambos teriam morrido do coração, saiu correndo aos prantos ao ver o tampão da cripta levemente escorregando para o lado. E Petrônio ficou pensando: ela até tinha um par de peitos bonitinhos…

Há, que diga que zumbis não possuem emoções, pensamentos ou qualquer coisa que o valha. É mentira. Se você pode acordar da morte, você pode fazer qualquer outra coisa. Se não é preciso o sangue pulsando, o coração batendo ou o pulmão oxigenando, você consegue pensar, sem pudor e sem vergonha. A única coisa ruim é que o corpo fica meio duro, meio enferrujado, sabe, como se alguns nervos estivessem faltando, ou como se seus músculos fossem na verdade uma grande massa de pão, só que ainda não foi para o forno. E foi pensando em pulmão que o general (“Que fumou de tudo um pouco, até não poder mais”) sacou um cigarro velho do bolso do paletó altamente decomposto. Ele agradeceu imensamente a boa alma que lembrou de colocar junto um isqueiro. Faziam a porcaria de 15 anos que ele se fora, e ainda havia uma réstia de fluido no isqueiro… Mas a mão ainda era um problema. Bem, ela simplesmente não conseguia riscar a pedra, faltava um pedaço do polegar, exatamente aquele pedaço necessário para girar a roda.

– Com licença distinto cavalheiro, o senhor está com alguma das mãos inteiras? Perguntou o velho general para o vizinho que acabara de se levantar. – Eu preciso de uma bela tragada depois de todos esses anos, mas me faltam alguns componentes…

Meio vagaroso, o senhor Pedro, (“Morreu vergonhosamente na cama de uma prostituta, mas morreu feliz”), pegou com a mão forte o isqueiro com o General Petrônio e depois de uma bela olhada no dispositivo, riscou a pedra. Na terceira tentativa uma pequena chama apareceu e o general conseguiu acender seu cigarro.

– Obrigado meu rapaz, você sabe me dizer o que se passa por aqui. Eu deveria estar virando comida de minhoca agora, mas não estou.

Como o senhor Pedro era um homem simples, e de poucas palavras, apenas balançou a cabeça num sinal de negativa, e não fosse esta ainda presa por alguns filamentos musculares e a pele, já teria caído com o movimento.

E a coisa estava ficando séria, todo mundo estava levantando de suas covas para ver como estava o ar lá fora, sabe, com o menor interesse? Pois bem, não sei que interesse teria aqueles que já se foram de voltar apenas para uma boa espiadela, mas era assim que estava acontecendo.

E logo começou o passeio pelas alamedas… Isso já avançava madrugada adentro, mas ninguém via o que acontecia ali, porque os muros eram altos do lado de fora, e a essa altura, o casal de góticos já havia aprendido a voar por cima dele, pouco se importando com a aterrissagem do outro lado. O arame laminado? É como a fome… Quando se tem muita, grama é salada, pedra é mistura, e arame laminado na hora do medo, é brincadeira de criança.

A Mortaiada pipocava de tudo quanto é lugar. O tempo cronológico se misturava com vestidos e outras vestes. Dona Gegê (“Que morreu porque mordeu a própria língua”), praguejava com qualquer um que passava por ela. Obviamente queria saber quem havia escrito palavras tão grosseiras em seu epitáfio. E tudo ali parecia uma grande festa, os mortos estavam na balada do ano, com a diferença que se havia alguma banda tocando, ela estava meio morta.

Já eram 4 da manhã quando tomaram uma decisão, iriam voltar para suas covas, sejam elas rasas ou profundas criptas, e voltariam a dormir, afinal de contas ficar no mundo dos vivos estava fora de cogitação. parece que foi a única coisa unânime entre os que debatiam o assunto, e que tinham língua para se fazer entender. O General era o mediador da discussão e no meio do 10º cigarro, ele declarou que não sabia o porque haviam se levantado, mas que pelo bem da natureza de todas as coisas, deveriam todos voltar a se deitar.

E foi assim que aconteceu, voltaram cada um para seus túmulos, fecharam suas covas, suas tampas, suas caixas ou o que quer que fossem, e voltaram a dormir, por vontade própria ou a mando do general, que sabia, mesmo depois de putrefacto, como comandar legiões. E antes de voltar para sua própria morada, deu aquela respeitosa tragada no seu ultimo cigarro, que num movimento rápido jogou a bituca ainda acesa por cima do muro do cemitério. Ela bateu no arame laminado e caiu acesa no chão, bem aos pés de Ricardo de Oliveira Schrubert, estudante da faculdade de medicina, e sorvedouro da maioria de derivados alcoólicos conhecidos pelo homem. Ele olhou para cima, agradeceu da forma como todo bêbado a beira de uma falência múltipla do fígado faria, e acendeu um cigarro seu na bituca do falecido General Petrônio.

 

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Projeto: O Conto

Decidi que a partir da semana que vem, pelo menos um dia da semana dedicareu à escrita literária. Vou escrever pedaços de contos para ir aperfeiçoando essa técnica. Afinal, esse é um dos propósitos desse blog, melhorar em alguma coisa.

Embora eu tenha alguns contos escritos e engavetados, eu ainda acho que eles estão bem imaturos para serem publicados, mas possuem boas idéias como base, então não planejo simplesmente copialos aqui, mas sim re-escreve-los neste espaço.

Não sei se a Ló vai participar, e esse desafio é mais light que o desafio de postar todos os dias no blog. Mas pretendo manter a escrita dos contos, fixa.

Um trechinho

que eu escrevi hoje do meu conto de terror (que, prá ser bem sincera, já devia estar pronto – estou muito atrasada!):

“Que tipo de besta teria feito aquilo? Por um lado, eu tinha a idéia fixa de que estávamos diante da caça de um animal selvagem – um urso, talvez – mas, por outro, uma parte de mim estava desconfiada e preocupada, e começava a pensar com um pouco mais de seriedade nas superstições dos camponeses. Meu lado racional, no entanto, atribuía esse pensamento ao medo – não de assombrações ou criaturas saídas do inferno para tomar o sangue dos inocentes – mas do escuro e do frio da noite que se seguiria.

O que Frei Matteo pensava quando viu aquela cena, eu jamais saberei. Mas ele se benzeu com o sinal da cruz ao ver as ovelhas mortas, murmurou uma frase para si mesmo, da qual eu só pude compreender as palavras sangue e ritual, e não tocou mais naquele assunto.

Os caçadores também encontraram uma gazela morta, mais ao norte, perto do rio. As duas ocorrências estavam dentro de uma das áreas que Frei Matteo determinara, e levantamos hipóteses sobre os locais onde a fera poderia ter se escondido, para nossa pesquisa de campo noturna. “

Um conto de terror como uma praia

Hoje foi a última parte da oficina de fanfics de terror que eu estou fazendo (falei sobre ela aqui). Cheguei até lá com o meu conto estruturado, uma parte escrita, etc. Sei claramente o início do conto, sei onde quero chegar, mas os meios para atingir o clímax e chegar ao fim, sempre estiveram um pouco obscuros para mim, embora eu tivesse algumas idéias que eu acho interessantes.

Hoje, na oficina, fui escrevendo mais um pouco, e percebi algumas inconsistênicias no que já tinha escrito. Teria que voltar e reescrever. Até porque, o pedaço que eu escrevi se parecia mais com uma rota um pouco diferente da que eu tinha imaginado quando comecei, uma hipótese que tinha levantado antes, mas não tinha certeza se ia usar ou não. Voltei da oficina para o trabalho pensando em reescrever, mas, entre passar duas horas no trabalho e tomar o caminho de casa, a história mudou novamente na minha imaginação, e o plano a, o que eu usei no início, parecia bem melhor que o b, então na verdade, quando eu reescrevesse eu tinha que levar em consideração outras coisas. Agora, que já cheguei em casa, fiquei um pouco sozinha, tomei banho (o banho é um momento mágico para pensar), não estou mais sentido frio (que clima chato o de hoje, viu!) e já estou em frente ao meu computador, me parece que precisarei de um plano c. Também tive a idéia d, que, se eu quiser levar para a frente, vou ter que mudar muita coisa, mas, devo confessar, é uma idéia muito tentadora.

Puxa vida! Essa não é uma aventura de RPG que eu esteja mestrando, onde eu tenho que pensar em várias coisas que podem acontecer de acordo com o que os jogadores fizerem. É só um conto curto, e eu tenho que escrever o que há de ser escrito. Talvez “Escrever sozinha” seja  é um termo muito forte. Mas eu tenho que entender o que as Musas querem, e qual caminho faz um conto melhor, mais interessante para o leitor, uma experiência mais bacana para mim enquanto escritora iniciante…

E aí eu paro, olho para o teto e suspiro, e vejo o quanto minhas leituras, prévias ou atuais, constroem a Lórien escritora. O livro que estou lendo agora está, junto com outras leituras, influenciando minhas decisões (Não dá para negar que os meus protagonistas estão diretamente relacionados ao Mr. Strange e ao Mr. Norrell, e, provavelmente, se eu não estivesse lendo esse livro, teria escolhido outro enredo completamente diferente!) , o  quanto minhas aulas na faculdade influenciam minha escrita, o quanto eu sou influenciada até por livros que eu li e não gostei (me peguei pensando sobre uma idéia que tive no banho ” não posso dar tal rumo a essa história, ou ela vai ficar muito parecida com tal livro que eu li uma vez e não achei bacana!”)  e o quanto eu ainda tenho que aprender!

Meu conto é como o contorno de uma praia, muda constantemente conforme as ondas batem, e voltam. Tem momentos de apagar e sobrescrever  mas é preciso lembrar que eu preciso ir adiante. Ou corro o risco de ter mais um escrito travado pela metade, que não chega a lugar algum, ou que pouco avança, devido às constantes reescritas. Isso já aconteceu outras vezes, mas como, dessa vez, eu tenho questões externas (eu quero cumprir a tarefa da oficina e entregar o conto, já que nem sempre se tem o privilégio de receber feedback de  uma escritora profissional, dizendo onde você pode melhorar), além do constante desafio, que já é quase um mote de vida, de aprender a terminar o que eu começo. O equilíbrio entre voltar e continuar ainda é complicado para mim, eu preciso aprender a me equilibrar nesse barco literário. Não estou segura de que darei conta da tarefa, mas estou muito esperançosa.

Não estranhem se meus posts desse blog se tornarem, por um tempo, pedaços do meu conto, ou forem inundados por criaturas da noite. Mas eu preciso me esforçar muito para terminar esse conto nos próximos dias. Se o melhor jeito for usar o tempo de postagem no blog para escrever o conto, talvez vocês acabem lendo alguns dos rascunhos…

Escrevendo um conto

Hoje foi o primeiro encontro de uma oficina de escrita literária com a escritora Rosana Rios, no SESC do Carmo (não galera, esse SESC não fica perto do parque do carmo, fica no Centro Velho!), da qual eu estou participando. A idéia é escrever um conto curto, uma fanfic, ambientada na Transilvânia de Drácula, o clássico livro de terror.

Aprendemos,ou relembramos, um pouco sobre literatura: Construção de personagens, foco narrativo, e aquelas dicas básicas que toda profissão tem e que, visto de fora, imaginamos coisas completamente diferentes. Uma das coisas que a Rosana falou é que um escritor profissional nem sempre pode ficar sentado esperando a inspiração bater. Tem que escrever, escrever e continuar escrevendo, num dia bom ou num dia ruim. Nesse sentido, exercícos como o desse blog são muito úteis. Embora não estejamos, necessariamente, escrevendo um pouco de literatura a cada dia, ainda assim estamos exercitando o escrever mesmo nas adversidades.

Pois bem: A tarefa do dia consiste em definir, pelo menos, o perfil do personagem principal da história (quais são suas características físicas, suas peculiaridades, sua profissão, etc) e qual será o enfoque narrativo (basicamente, quem e como narrará a história).

Eu estou completamente indecisa sobre qual será meu personagem principal, pensei em dois deles, acredito que nenhum seja muito original: O primeiro, um padre bastante ambíguo, que, por um lado, tem fé na sua religião e devoção às ordens da igreja, e, por outro, não ignora o espírito científico e as idéias positivas; ele teria sido mandado para a Transilvânia pela igreja, para acabar com essa supertição tola de vampiros.

O segundo, seria um caçador que vivesse em alguma das florestas geladas da Transilvânia, e que acabasse sendo vítima de um vampiro, e talvez até se tornando um deles.

Eu não sei mesmo que história seguir! Acho que as duas podem ser tão interessantes! Enquanto penso nisso, não posso deixar de mencionar algumas outras coisas que a Rosana mencionou: O cuidado com o uso do português coloquial, mesmo nos diálogos, pois um livro com muitos vestígios da oralidade acaba incomodando, o fato de que cortar coisas escritas é comum e necessário – o processo de edição é muito importante! Também, que nunca se deve colocar em cena elementos soltos; se eles foram mencionados, em algum momento eles precisam fazer alguma diferença; que é necessário manter o mesmo tempo verbal na narração, para a história não ficar confusa. E que todo o texto tem um leitor, e, por isso, deve ser inteligível para ele.

Gostei muito da oportunidade de participar da oficina. Escrever um conto depois de tanto tempo enferrujada será um grande desafio. Espero que saia, pelo menos, mais ou menos. No fundo, ia gostar mesmo se meu conto de terror fosse assustador.

Selinho